JÚLIO RENDEIRO: «Nunca vi um jogador de hóquei em patins como ele»  
  Foi no seu gabinete, em Lisboa, na empresa (Clama) onde trabalha e na qual é um dos sócios, que Júlio Rendeiro – um dos “gigantes” do Hóquei em Patins mundial – concedeu a entrevista. Como jogador, Júlio Rendeiro participou pela primeira vez num Campeonato do Mundo em 66 (São Paulo) com Livramento. Além de 74, em Lisboa, participou ainda, sempre ao lado de Livramento, nos Mundiais de 68 (Porto, onde foi campeão), 70 (San Juan, Argentina), 72 (Corunha, Espanha) e 76 (Oviedo, Espanha). Nos 6 Campeonatos Europeus em que participou (Espanha/67, Suíça/69, Lisboa/71, Alemanha/73, Itália/75 e Porto/77), só não foi campeão europeu em Lausanne (Suíça) e em 71 não teve a companhia de Livramento. Como jogador do CI Sagres e do Sporting CP, jogou contra Livramento (SL Benfica) e como colega de equipa no Sporting CP. Começaram a jogar juntos pela primeira vez como juniores, foram internacionais pela primeira vez ao mesmo tempo e ganharam ambos um Campeonato Europeu de Juniores, em Lisboa/60 (em que a Selecção de Juniores não sofreu golos). Júlio Rendeiro, além do Sporting, treinou ainda a Selecção Nacional por duas vezes (78/79 e 81/82), na segunda das quais em parceria com Livramento. Para Júlio Rendeiro, LIVRAMENTO foi o «maior de todos» e é uma «figura absolutamente impagável».  
     
  Sobre o Mundial de 74 em Lisboa…  
  Júlio Rendeiro Esse Campeonato do Mundo tem algum significado especial. Primeiro porque foi um Campeonato do Mundo rodeado de uma moldura muito especial, jogado no Verão, em Junho/Julho, em 74, com uma moldura política completamente diferente no País, nova, entusiasmante para todos e estimulante. Em segundo lugar porque esse Campeonato estava para ser em Luanda, proceder-se-ia à inauguração da Cidadela, aquele excelente complexo desportivo que entretanto tida sido feito. A Selecção Portuguesa chegou a deslocar-se para Angola com antecedência, estivemos em Luanda praticamente um par de semanas em regime de adaptação, aliás juntamente com a Selecção Argentina, que foram as duas únicas selecções que se deslocaram para Angola, mas depois a evolução dos acontecimentos em Angola tornou completamente desaconselhável e impossível de realizar o Campeonato do Mundo em Luanda, como estava previsto, e esse Campeonato do Mundo foi reorganizado em Lisboa de um forma notável, e que só de facto pessoas e dirigentes com uma enorme experiência na organização destes eventos como eram os dirigentes portugueses, foi possível remontar o Campeonato para ser disputado em Lisboa e ganho. Portanto, trata-se de mais uma razão pela qual o Campeonato nunca mais nos saiu da memória e, finalmente, porque foi de facto um Campeonato do Mundo que foi ganho na sequência de algum jejum a nível desses títulos, digamos assim. Felizmente que não há recordações especialmente marcantes para além dessas que vivi porque o registo é um registo de vitória constante, vitória com uma enorme frequência, portanto não há mais nada de especial desse Campeonato mas esse par de razões é significativo para nos lembrarmos desse Campeonato do Mundo.  
     
  Recordações de António Livramento, algum episódio em especial…  
  Júlio Rendeiro A recordação que eu guardo do António é um filme que começa a ser rodado connosco muito jovens, com quinze anos. Lembro-lhe que nessa altura eu vivia no Porto (final da década de 50). Fazer uma viagem do Porto a Lisboa para um pessoa com aquela idade era quase como fazer uma viagem de circum-navegação, era a descoberta do mundo, foi aí que comecei a conviver com o António. Curiosamente lembro-me que a esmagadora maioria das vezes que estivémos nas Selecções – como sabe os quartos são ocupados em pares e desde miúdos que de facto partilhámos o mesmo quarto – e portanto foi uma pessoa, um atleta que eu de facto aprendi a apreciar de todos os pontos de vista. Nunca vi um jogador de hóquei em patins como ele, de um ponto de vista criativo, de um ponto de vista de sentido da equipa, de um ponto de vista de entuasiamo pelo jogo, de um ponto de vista de alegria pelo jogo, enfim, foi de facto o maior de todos no meu ponto de vista. E simultaneamente com estas caracterísiticas únicas como jogador, ele tinha uma enorme alegria, tinha uma forma de conviver em grupo que transformava esse convívio numa autêntica aventura e sempre num filme de boa disposição e de descompressão. Isso é um coisa também que todos nós lhe devemos e em relação à qual também o consideramos perfeitamente insubstituível, cenas vividas com ele, dentro deste domínio, do domínio da alegria de vida, do domínio de olhar para a vida com uma enorme ânsia de a disfrutar, de a viver, são únicas e de tantos acontecimentos que se viveram não tenho nenhum que me apeteça relevar porque de facto era um manancial constante. A sua grande categoria como jogador que o tornou único, junto com a maneira ímpar e alegre como ele olhava para a vida e para as pessoas, transformaram-no de facto em qualquer coisa, para quem viveu e gosta de hóquei em patins, o tornam e o tornaram numa figura absolutamente impagável. É isso que eu penso.  
     
  Foi treinador da Selecção. Em 79 Livramento já não jogou na selecção, mas em 78 foi treinador da Selecção com Livramento como jogador. Como foi ser treinador da Selecção tendo Livramento como jogador?  
  Júlio Rendeiro O António nessa fase da vida dele, nessa fase de jogador, já não tinha o esplendor doutro tempo, mas foi um jogador sempre de uma enorme utilidade colocando ao serviço da equipa uma enorme experiência. A minha experiência como Seleccionador é uma experiência que não tem nenhum relevo, não há nada que sublinhar, porque eu não tinha nenhuma vocação para o cargo, não tinha e não tenho…  
  …mas acabou por repetir a “dose”?!  
  Júlio Rendeiro Pois, mas por razões que sobrestiveram sempre em relação a qualquer análise que eu fizesse sobre a minha própria vocação, foi mais para responder a chamamentos com os quais me defrontaram, do que por querer exercer qualquer actividade desse tipo, quer em relação ao Sporting (que também treinei durante meses) quer em relação à Selecção onde estive duas vezes. A primeira vez sozinho e a segunda vez com o António, que foi em 82. Foi sempre para responder a chamamentos que entretanto me fizeram porque havia condições objectivas e concretas que justificavam que eu desse uma mão e respondesse a esse chamamento, e nunca porque eu achasse que tinha qualquer vocação especial ou qualquer ambição nessas áreas porque a minha vida não… acho que não tenho nenhumas condições para ter qualquer espécie de êxito numa tarefa desse tipo. A primeira das quais é que não gosto disso e eu não acredito que nos consigamos afirmar capazmente a fazer coisas de que não gostamos, e eu de facto da actividade de treinador e de seleccionador não gosto, não me diz nada de especial. Depois, repito, tive um experiência com ele, eu como seleccionador e ele como treinador, mas isso foi em 82.  
     
  Já se referiu a Livramento como o maior de todos, porque é considerado unanimemente como o melhor jogador de todos os tempos a nível nacional e mundial, portanto o número 1. Mas o senhor que foi um jogador de excepcional craveira é considerado por muitos, quase também unanimemente, o número 2. Considera-se o número 2 do hóquei em patins?  
  Júlio Rendeiro Nem pense nisso e isto não há aqui nenhuma situação de falta de modéstia. Se regressarmos ao banco de escola, qualquer pessoa que é professor, e eu também já fui, sabe que é fácil distinguir um aluno que sabe para 18 ou sabe para 10 ou para reprovar, ou sabe para 2 ou para 3, mas não é fácil distinguir se um aluno sabe para 18 ou 17. Portanto acho que não faz nenhum sentido estar a olhar para os jogadores nesses termos. Acho que faz sentido olhar assim: há jogadores de craveira claramente acima do alto, e não são muitos em Portugal, e depois há bons jogadores. Felizmente o hóquei em patins português sempre teve bons jogadores, digamos assim, e eu incluo-me no lote de bons jogadores que existiram em Portugal, mas de modo algum posso alcandorar ao lote daqueles jogadores acima do alto, que Portugal não teve assim tantos quanto isso, teve mas não teve tantos quanto isso.
  Hoje em dia a televisão oferece-nos a possibilidade de seguir um pouco mais de perto o hóquei, que é o que acontece comigo, quando um jogo é transmitido na televisão normalmente vejo, e o que é que eu verifico? Verifico, acho por aquilo que vou vendo, que o Hóquei em Patins português em termos médios melhorou bastante, acho que há um boa igualdade das equipas, e igualdade por cima não é um igualdade por baixo. Acho que o número de bons jogadores aumentou, o suficiente e o bom melhoraram, aumentaram em quantidade, e isso é muito bom, é um nota positiva que eu registo a favor do hóquei. A segunda nota positiva, já agora, é achar que pese embora as enormes contrariedades que a modalidade está a ser confrontada, ela continua a ser um modalidade que os portugueses gostam e isso é muito importante. Agora há um coisa que é óbvia, e é claro, e isso já não é um opinião é um facto, é que hoje em dia ao nível de cúpula perdemos mais vezes do que perdíamos antigamente, e mais do que isso até chegámos a perder jogando em casa que é uma coisa que nunca acontecia. Como é que se compatibiliza esta perda de competitividade a nível de topo com a melhoria, com o alto que eu defendo que existe no hóquei? Para mim a explicação é muito simples, porque dá a ideia de que há aqui um paradoxo mas não há e a explicação é a falta de jogadores fora-de-série.
   O Hóquei em Patins português sempre teve ao longo da sua história vários jogadores fora-de-série, e mais, há gerações, há equipas, há selecções nacionais que chegaram a ter mais do que um, mas pelo menos um tiveram sempre. Sem recuarmos muito, lembro-me de uma Selecção Nacional mais recente... Bom, estas coisas são sempre muito discutíveis. Para mim o último jogador fora de série do Hóquei em Patins português foi o Vítor Hugo. Na Selecção, antes do Vítor Hugo estava o Livramento e o Chana, aí está um 5 com dois fora-de-série. Recuo um pouco mais, tinhamos um Selecção onde estava o Livramento e o Fernando Adrião. Sempre tivemos nas Selecções Nacionais um ou mais jogadores fora-de-série. E sabe que a existência de jogadores fora-de-série numa equipa dá-lhe, do ponto de vista competitivo, caracterísiticas únicas, porque são esses jogadores que em momentos complicados, contra adversários que se fecham, nas horas de verdade conseguem imaginar uma jogada de que só eles são capazes, conseguem fazer um passe que só eles são capazes, dando à equipa uma superioridade no marcador que lhe permite depois expressar a categoria que realmente tem. E portanto o Livramento faz parte deste lote de dez ou vinte fora-de-série que o Hóquei em Patins português ao longo da sua história sempre teve, mas na minha geração de jogadores, apanhando eu aquela geração de Lourenço Marques e esta geração que conhece, eu considero que de três ou quatro jogadores fora-de-série, o Adrião, o Velasco (mas o Velasco terminou muito cedo, não vale a pena considerarmos essa equipa de Lourenço Marques), dessa equipa de Lourenço Marques era o Adrião, depois desta equipa era o Livramento e o Chana, e se quiser o Vítor Hugo, se eu apanhar a geração imediatamente anterior à minha, a minha geração e a geração imediatamente posterior, eu identico quatro jogadores fora-de-série, não identifico mais, e neste sentido nem de perto nem de longe meterem-me nesses lotes.