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JORGE VICENTE: «O António neste Mundial foi a figura» |
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 Então (Fev/00) treinador do OC Barcelos, foi na qualidade de Seleccionador Nacional, num dia que efectuava um treino de observação de jogadores sub-23, no (antigo) Pavilhão do SL Benfica, que Jorge Vicente concedeu a entrevista. Como jogador, Jorge Vicente participou, vitoriosamente, apenas em dois Campeonatos do Mundo, ambos com Livramento: Porto/68 e Lisboa/74. Participou em 3 Campeonatos Europeus (Suíça/69, Lisboa/71, Alemanha/73), tendo ganho os últimos dois e na Suíça sem a participação de Livramento. Jorge Vicente treinou a Selecção no Mundial de 86 (Sertãozinho, Brasil) e foi colega de equipa de Livramento no Benfica. Para Jorge Vicente, LIVRAMENTO era o «jogador que fazia uma grande diferença» e era ainda um «treinador conceituado». |
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O que foi para si ganhar o Mundial de 74, em que jogou com Livramento? |
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Jorge Vicente Recordo-me que esse Mundial de 74, nós já tínhamos estado quinze dias em Luanda. Estava-se a prever um Mundial com grande entusiasmo do povo angolano, infelizmente por motivos de desordem e a aproximar-se aquilo que seria depois a independência, tivémos que regressar um pouco à pressa. Fizémos um Campeonato em Lisboa com grande entusiasmo do público, e onde mais uma vez o António neste Mundial foi a figura, embora rodeado também de outros elementos de grande valia. Portanto foi o segundo Campeonato que eu ganhei, o primeiro foi em 68 também com o António: com o António (em 68) ganhámos 2-1 à Espanha, recordo-me perfeitamente com um golo à meia volta do António. Isto diz que todos os títulos nessa altura que se ganhou o António tinha sempre uma grande percentagem dos golos porque era efectivamente o jogador que fazia uma grande diferença. |
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Sobre António Livramento… |
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Jorge Vicente Conheci o António Livramento quando cheguei ao Benfica, vindo dos Açores com 15 anos. A partir dos 15 fiz 2 campeonatos de júnior, comecei a habituar-me a ver na Gomes Pereira… treinava-me e depois ficava a ver os seniores. Vinha já dos Açores como um miúdo de 15 anos como referência para o Benfica, o António Livramento, o José Lisboa que também tinha deixado os campeões do passado, e depois foi com entusiasmo que comecei a lidar com ele, ainda menino, ele já mais experiente. A diferença entre nós era quase de três anos, ele já era dos seniores, e depois começámos a conviver bastante, fizémos uma vida muito em comum, o que é normal em dois jovens sem responsabilidades na altura. Ainda não éramos casados, divertimo-nos bastante, ganhámos muitos títulos em prol do Benfica, convivemos na Selecção, e aquilo que Livramento foi sempre – infelizmente até à sua última hora –, era sempre uma pessoa que punha toda a gente bem disposta, porque ele tinha sempre uma brincadeira para fazer, no grupo era sempre ele que arranjava, digamos a maneira de “engatar”, no bom sentido, alguém. As histórias que se arranjavam eram sempre elaboradas pelo António, sempre dentro da brincadeira. Recordo-me quando havia muitas peripécias que fizémos juntos, porque como eu disse desde os 15 anos até aos 24 (8 ou 9 anos), éramos solteiros, vivíamos em Benfica, jogavamos hóquei, quase só hóquei, e portanto só tenho boas recordações. Ele casou, eu também casei, habitávamos quase de fronte, continuámos a fazer sempre uma boa vivência, até que ele depois foi para Itália e começámos a separar-nos um pouco mais. Não há dúvida que infelizmente o António foi-se embora cedo demais, ainda estava na plenitude das suas faculdades, ainda era um treinador conceituado, ainda mantinha sempre o mesmo espírito, e como eu disse, já com 50 anos, quem estava ao lado dele divertia-se porque o António era uma pessoa que mantinha a boa disposição ao seu redor. |
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Não sei se quer responder, mas como foi estar em Reus, no Mundial, e não poder dizer o último adeus? |
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Jorge Vicente Aceitámos porque ninguém estava à espera. Já custa muito nós vermos um colega de longa data desaparecer por doença ou que se esperava, assim uma coisa repentina deixou-nos todos abalados e foi difícil superar. O não estar presente em corpo no último adeus, fiz-me representar pela família, mas o pensamento naqueles dias que se seguiram portanto era só a fatalidade que tinha acontecido a ele, e que depois nos faz pensar em muita coisa porque estamos na mesma idade de risco e afectou com certeza todo o ambiente, e foram dias difíceis de passar, para mim, para os restantes, até dirigentes, e também para muitos jogadores do FC Porto que tinham passado recentemente grandes momentos de alegria, que sentiram também muito a notícia de uma morte brusca que ninguém estava à espera. |
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