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ANTÓNIO RAMALHETE: «Todas as qualidades de um grande treinador» |
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 Um dos mentores e impulsionadores dos «Amigos António Livramento» e comentador de hóquei em patins numa estação televisiva, António Ramalhete começou a jogar com António Livramento nos juniores do SL Benfica, mais tarde foram colegas de equipa no Sporting CP, onde António Ramalhete ainda foi treinado por Livramento. Como jogador, Ramalhete participou em 8 Campeonatos do Mundo, dos quais os 5 primeiros com Livramento: Argentina/70, Espanha/72, Lisboa/74 (CM), Espanha/76, Argentina/78, Chile/80, Barcelos/82 (CM) e Itália/84. Participou em 7 Campeonatos Europeus (Lisboa/71, Alemanha/73, Itália/75, Porto/77, Espanha/79, Holanda/81 e Itália/83), tendo ganho os 4 primeiros, dos quais o primeiro em Lisboa sem a participação de Livramento. |
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Sobre o Mundial de 74… |
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António Ramalhete Teve uma vertente muito complicada porque aconteceu naquele período da Revolução e o Mundial estava na altura aprazado para Luanda, para a inauguração da Cidadela que era o complexo desportivo do FC Luanda, então o maior pavilhão quer em Luanda como em Portugal. A Selecção Portuguesa ficou instalada em Luanda, partiu com 15/20 dias de antecedência, para se adaptar ao clima, ao piso do pavilhão. Treinámos 15/20 dias até que, em termos de Revolução, as coisas começaram-se a complicar, começou a haver distúrbios, começou a haver grande burburinho no que concerne à população civil, e muita gente a contestar a realização do Campeonato, até que houve uma ordem do quartel mestre general de que não havia as condições necessárias para o Campeonato disputar-se lá. Naquele período houve uma azáfama durante 2/3 dias, o que é que se fazia e não se fazia, até porque havia países que também já começavam a chegar com as suas selecções a Luanda – a Argentina foi uma das selecções de que eu me recordo, que tinha chegado a 6 dias da realização do Campeonato –, e quando veio a ordem militar de que não havia condições, houve uma necessidade imperiosa de regressarem as Selecções presentes. Para a organização do Campeonato, o problema então estava em arranjar um avião, e aquilo foi engraçado porque acabámos por ir todos de jipe com os militares de G3, pois na altura as coisas já estavam em grande ebulição. Recordo-me de que não estava no hotel, penso que era num dia de descanso, acabei por ir sozinho num jipe com mais outros 2 jipes a servir de segurança até chegar ao aeroporto, e toda a comitiva que se encontrava em Luanda acabou por embarcar para Lisboa, onde se veio depois a realizar esse Campeonato do Mundo. |
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E em Lisboa, até à Final? |
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António Ramalhete Em Lisboa, foi um Campeonato diferente porque também se estava a viver o período da Revolução, portanto aqui foi no Pavilhão dos Desporto, hoje chamado Carlos Lopes. Foi interessante na medida em que todos os jogos eram realizados com militares nas primeiras filas junto ao recinto, havia uma certa insegurança em relação ao público, insegurança que se pudesse transmitir às outras Selecções. Foi, portanto, um Campeonato diferente porque foi numa altura em que se viveu este período revolucionário. Portugal acabou por ganhar, tínhamos necessidade de ganhar à Espanha na Final, e acabámos por ganhar 4-2 que não deixou margens para dúvidas de quem era o melhor. O Campeonato deixou marcas e recordações não por se ter ganho o Campeonato e não por aquilo que se fez, mais pela aventura que se viveu durante aquele mês e meio, os dias que antecederam e os dias em que se realizaram o Campeonato. |
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Em relação a Livramento no Campeonato e fora desse Campeonato, antes e depois… |
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António Ramalhete O Livramento jogou comigo no Benfica desde os juniores, e depois é claro houve períodos em que ele estava em Itália e não jogou comigo. Não disputou o Campeonato da Europa em 71 porque o seleccionador, Armando Ribeiro, achou que os jogadores que estavam no estrangeiro não tinham que representar a Selecção Nacional, e o António Livramento acabou por ver o Campeoanto - que também foi realizado no Pavilhão dos Desportos - na bancada. O seleccionador foi muito contestado por não tê-lo incluído nessa Selecção. O Livramento, digamos, que me acompanhou e eu acompanhei-o durante toda a nossa vida desportiva, toda a nossa vida como jogadores, até deixarmos de jogar. Ele já que era 4 anos mais velho do que eu, enveredou pela carreira de treinador mais cedo e, portanto, acabou ainda por ser meu treinador durante 4 anos. Foram muitos anos ligados em termos desportivos e em termos de amizade. |
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Um episódio curioso que tenha passado com António Livramento… |
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António Ramalhete Os episódios eram sempre episódios de brincadeira, mas há episódios interessantes. Nós normalmente íamos muito a Selecções do Resto do Mundo. Dos jogadores que mais eram convidados a este tipo de Selecções era o Livramento e eu, por vezes também o Cristiano, outras vezes o Chana, muitas vezes o Adrião, mas por norma os dois seguíamos sempre, e numa dessas saídas para uma Selecção do Resto do Mundo, na Argentina, nós fizémos um voo, eu, o Cristiano e o Livramento. Nessa viagem o destino era Lisboa, Madrid, Buenos Aires e San Juan. O jogo era em San Juan e viajávamos na Iberia. Entretanto, nesse período, tinham caído dois aviões da Varig, dois DC-10, enquanto que a Iberia tinha os Boieng 747, portanto viajávamos em Boieng. No regresso, depois do jogo que fizémos em San Juan, o Livramento lembrou-se de que seria interessante nós viajarmos num DC-10, já que se caíam os DC-10, íamos experimentar para ver se também caía o DC-10 em que nós viajássemos. O que é que nós fizémos? Fomos à agência de viagens e transferimos o voo: em vez de viajarmos San Juan/Buenos Aires/Madrid/Lisboa, viajámos San Juan/Buenos Aires/Rio de Janeiro/Lisboa, para que do Rio de Janeiro para Lisboa regressássemos num DC-10 da Varig, e assim aconteceu, (a rir) o avião não caíu, acabámos por chegar sãos e salvos. Esta foi uma daquelas ideias e brincadeiras que o Livramento tinha. A queda dos DC-10 acabou por servir de pretexto para irmos até ao Rio de Janeiro. |
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Como foi ser treinado por António Livramento? |
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António Ramalhete Em termos de ser treinado pelo António Livramento era a mesma coisa que ser colega de equipa do António Livramento. Nunca dei muito pelos treinadores, nunca senti muito a influência que o treinador tinha sobre o jogador, nunca fui um jogador influenciável, era um jogador que por norma os treinadores não diziam nada, e portanto não era influenciável por qualquer treinador, inclusivé os treinadores procuravam tirar de mim alguma influência para que fosse eu também a contribuir e a dar algum estímulo a todos os outros jogadores. Portanto, digamos que éramos mais colegas do que propriamente treinador e jogador. Se me perguntar como o considerava como treinador, posso dizer que ele tinha todas as qualidades para ser um grande treinador, assim como foi. |
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Como comentador de hóquei em patins na tv, nos jogos com o FC Porto, criticou alguma vez Livramento? |
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António Ramalhete Nalgumas situações sim, mas a maior parte das vezes o Porto, inclusive na parte final, superiorizou-se grandemente em relação a todas as outras formações. Digamos que a crítica inicial foi em relação ao período de adaptação dos jogadores aos métodos de António Livramento. |
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